quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só para registro


Acabei de ler um livro bem legalzinho.. Simples Filosofia" de Pablo Capistrano - ele conta a história da filosofia em 47 crônicas de jornal - Algumas muito interessates! Postarei algumas crônicas aqui =)

A casa de Deus



Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia


Algumas verdades aparecem pelo pensamento. Elas entram pela porta de cima de nossas ideias e surgem lentamente, como se estivessem sendo construídas etapa a etapa, por uma quantidade de anos que ultrapassa nossa própria experiência. Elas nos oferecem certezas fragilizadas pelas evidências que colhemos. Verdades desse tipo são essencialmente provisórias, instáveis, circunstanciais.

O homem já provou quão difícil é manter por muito tempo uma dessas verdades. Mil anos é uma eternidade para que uma das certezas do pensamento se cristalize entre nós. Alguém pensa alguma coisa, publica em um jornal ou em um site na internet, escreve em umas 500 páginas de uma tese que pouca gente vai ler ou comenta em uma roda de amigos. Pronto. Já é tempo suficiente para sua verdade ser desconstruída ou submetida a um processo de decomposição. Vez ou outra alguma monstruosidade intelectual dessas que povoam o mundo ocidental consegue manter, no mundo público, sua verdade racional por alguns meses, anos ou décadas livre de uma desconstrução desse tipo, mas isso não acontece todo dia.

Mas o jogo é esse mesmo. Nessa vida, as verdades que a gente acha pelo pensamento são construídas para serem desmontadas, arquitetadas para serem implodidas, erguidas para que alguém venha e as derrube. Mas apesar desse ser o jogo do pensamento há um outro nível de verdades que são desconcertantemente mais sólidas.

Quando chegou com sua companhia de infantaria portuguesa em Angola no começo dos anos 1960 para sufocar uma rebelião nacionalista, o soldado João Figueira, então com menos de vinte anos, deparou-se com uma imagem aterradora. Espalhadas pela vegetação espinhenta e retorcida do cerrado angolano, penduradas nos galhos secos, como se fossem totens sinistros que avisavam sobre uma guerra longa, terrível e selvagem; jaziam dezenas de cabeças humanas, decepadas de seus corpos e postas como sinais no meio da mata.
Desde o tempo da velha Ilíada que o corpo dos homens é um templo que não se deve profanar. Ali Homero (ou qualquer outro fantasma de quem não se sabe o nome) cantou a ira de Aquiles, que, possuído de ódio, matou Heitor e mutilou seu corpo, após arrastar o cadáver em frente às muralhas da velha cidade de Troia, diante dos olhares consternados do pai e da esposa do morto.

Aquiles desconsiderou a velha lei e profanou o corpo de seu inimigo. A descrição da luta e da profanação do corpo de Heitor por um Aquiles possuído de ira é uma das mais comoventes e desconcertantes cenas da literatura ocidental.

Não é simplesmente o fato de Aquiles ter matado Heitor. Isso faz parte do jogo de vida de um guerreiro e, diante da tragédia que se anunciava, a morte de um homem, por mais valoroso e heroico que fosse, não era nada além de uma morte qualquer. O problema é outro. Mutilar o corpo do morto, sequestrá-lo, privá-lo de sepultura é uma das piores ofensas que podem ser feitas à linhagem de alguém. Todos os membros da família são amaldiçoados. Os vivos, os mortos e os que ainda não nasceram. Por isso, Príamo (pai de Heitor), na narrativa de Homero, se humilha diante do assassino de seu filho para suplicar que seu corpo seja devolvido.

Tanto Príamo na velha Turquia do começo do tempo quanto o pobre soldado português João Figueira, pego em sua juventude no meio de uma das últimas guerras coloniais do século XX, sentiram, cada qual a seu modo, cada qual com sua dor particular, que o tipo de verdade que emerge do corpo de alguém tem uma autoridade mais intensa do que aquela gaseificada construção mental que os filósofos costumam produzir quando se põe a pensar.

A sacralidade do corpo humano tem a ver muito provavelmente com a imensa força de sua experiência. Se minha mente pode expandir minha linguagem e me transferir para lugares distantes, o corpo tem o poder de me convencer de suas razões de modo inexorável.
Por muito tempo eu me questionei sobre a origem da fé. De onde poderia surgir a certeza que alguns tem de suas crenças e de seus dogmas, muitas vezes tão frágeis quando submetidos ao crivo de alguma razão qualquer? Hoje eu começo a perceber que a experiência religiosa não é algo abstrato, distante e cerebral. A ideia equivocada de que religiosidade é sempre “uma coisa do espírito” e que por isso está muito distante do mundo concreto dos homens nos leva a pensar que as religiões são sempre doutrinas e nunca experiências particulares, acontecimentos íntimos e radicalmente individuais, que ecoam na vida de seus adeptos pela porta de entrada de seus corpos.

As experiências da velha religião dos xamãs me ensinaram que a dança, o canto, as bebidas mágicas, os sinais simbólicos que levam ao entusiasmo divino passam pelo corpo, atravessam seus canais e dominam o indivíduo a partir daquilo que ele tem de mais real e de mais concreto. Príamo, o velho rei do tempo sombrio de Homero, e João Figueira, o pobre soldado português da era moderna, sabem que o corpo é a casa de Deus e que as verdades que emergem dele marcam mais intensamente a vida dos homens.

Meu corpo não está sozinho, boiando no universo como se fosse uma bolha de sabão solta na sala de estar de um apartamento, em uma imensa cidade, de um mundo gigantesco, em uma galáxia qualquer desse universo que ninguém sabe onde acaba. Meu corpo está ligado a tudo porque não há uma linha, traçada por algum lápis metafísico ou por alguma substância pensante, que me separe de todas as outras coisas que me cercam. Minha solidão é um presente da minha linguagem e do meu pensamento; meu corpo, os velhos xamãs sabiam disso, é uma casa onde moram todos os deuses.

sábado, 3 de abril de 2010

Jean-Jacques Rousseau, na carta a Christophe de Beaumont, escreve que a juventude jamais se ex­travia por sua própria conta, e que todos os seus erros decorrem do fato de ter sido mal conduzida. Em Emílio, o filósofo fala da condução do jovem, ou do adulto, ou da criança - da educação, em suma. Mas educação no sentido de um processo funcional de desenvolvimento de habilidades que proporcionem o conhecimento do que há de melhor no ser humano. Aprender a ser. Rousseau, ao tratar do "bom selva­gem", chama a atenção para o fato de que, em estado primitivo, o homem tinha um estado de felicidade natural, e até de piedade, como o que se nota nos próprios animais.

Seria como um cantor que, sozinho, canta sua canção, e com ela fica feliz. Ou um dançarino, um es­cultor ou artesão. De repente, surge alguém que faz a mesma coisa. E as pessoas começam a dizer para o primeiro artista: "Esse fulano, que acaba de chegar, canta, dança ou esculpe melhor do que você". Assim surgem as comparações, que geram competições. E essas competições vão ter como conseqüência uma desenfreada busca pelo poder. Surge um conceito de posse. Surge a coisificação do ser humano.

A competição, sob esse prisma, não leva à evolução, mas ao desejo de destruição. Leva ao esvazia­mento da espontaneidade. Porque tudo o que se quer é conseguir ser melhor do que o outro.

A educação contemporânea trabalha com essa dicotomia entre competir e cooperar. O processo de avaliação leva, muitas vezes, a uma exacerbação da competição, e o vestibular caminha na mesma dire­ção: "Quem é o melhor? Quem sabe mais? Quem consegue vencer?" E a escola, refém desse diapasão, acaba por ensinar com acordes desafinados.

Na vida profissional, quem vale mais não é aquele que decorou mais coisas, mas o que é capaz de partilhar, de trabalhar em equipe, de desenvolver autonomia e criatividade. Quando se tenta homoge­neizar o processo educativo, destrói-se a criatividade. Cada aluno é diferente e isso o torna rico, único.

Suas possibilidades não podem ser reduzidas a uma visão que compara e iguala os diferentes. Porque a simples comparação leva a uma competição desnecessária. Por essas razões é que consideramos que a autonomia deve ser a palavra. Aprender a conviver. Aprender a respeitar as diferenças, e, mais do que isso, aprender com elas. Raça superior não existe, nem gênero superior, nem etnia privilegiada. Não há cidadão de primeira ou de segunda categoria. A cidadania é para todos. Para todos os diferentes, porque iguais não há.

A educação tem de ser reinventada o tempo todo. Mas, em nenhuma hipótese, pode-se jogar fora o que já se construiu a ceticismo e a visão distante da realidade levam a um certo descrédito da popula­ção com relação às políticas públicas de educação.
É o mesmo sol que derrete a cera e seca a argila. (Antoine de Saint-Exupéry)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O que é a filosofia?” em menos de 3 mil palavras



Da maneira como a desenvolvo, a filosofia tem uma dupla acepção. De um ponto de vista geral, ela é uma narrativa de desbanalização do banal. De um ponto de vista específico, ela é uma investigação que lida com os mecanismos que nos fazem tomar o aparente pelo real – se é que estamos envolvidos nesse problema.

Essa maneira de descrever o que faço como filósofo é o melhor modo que encontrei para colocar meu leitor, de modo rápido, inteirado a respeito do que é o meu cotidiano.

Tudo que vejo e que os outros também enxergam todos os dias se torna banal para nós. O trânsito não funciona na cidade de São Paulo e o prefeito diz que está tudo bem. Alguns reclamam. Mas a pressão do trabalho faz com que todos entrem no ônibus lotado e se submetam a condições desumanas para ir para o serviço. Eis que em determinado momento, ninguém reclama mais. Toma-se como banal que o trânsito não funcione. Ocorre aí a banalização de nossa própria vida. Então, é hora do filósofo mostrar uma cidade grande, em outro lugar, em outro país, onde o trânsito funciona – para desbanalizar o nosso banal, que é o trânsito não funcionando.

O filósofo é aquele que vê o que todos vêem todos os dias, mas ele, diferente de outros, aponta para situações em que aquilo que é visto não é algo que deveria estar ali como está. Poderia não estar. Talvez devesse não estar como está.

Até aí, estou no âmbito da minha atividade de desbanalizador do banal. Caminho na função da filosofia, assumida de acordo com a acepção geral que dou a ela. Mas essa desbanalização do banal me conduz para à minha segunda acepção de filosofia.

Entro em casa, ligo a televisão e vejo o prefeito, de helicóptero, passeando por cima de São Paulo e afirmando que o trânsito em São Paulo não é tão ruim, que “sempre foi dessa maneira”, que São Paulo é muito grande e que com 22 milhões de pessoas aglomeradas “não poderia ser diferente”. Eis que está na sala um vizinho, e ele apóia o prefeito. Ele acredita que, de certo modo, o prefeito está certo. Como poderiam 22 milhões de pessoas aglomeradas, todo mundo de carro, não congestionar a cidade – impossível. O jeito de lidar com a coisa, então, é uma só: paciência – esta é a fórmula do prefeito e do meu vizinho. Bem, diante dessa conclusão do meu vizinho, minha atividade de desbanalização do banal caminha para o campo da minha segunda acepção de filosofia. Pois o que meu parente está fazendo é simplesmente parar de pensar e aceitar o discurso – ideológico – do prefeito.

O problema, então, não é o de convencer o meu vizinho de que o prefeito está usando de um discurso ideológico. O problema filosófico, neste caso, é mais complexo. O filósofo não é o que vai desideologizar o discurso do prefeito. O filósofo é o que vai investigar para entender quais os mecanismos (se é que existem) tornaram o vizinho capaz de tomar o aparente – o problema do trânsito não tem solução – pelo real – o problema do trânsito deve ter solução, uma vez que a racionalidade em outros lugares eliminou tal problema.

2008 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

Visita ao Museu de Belas Artes em Ssa

Exposição maravilhosa de Rodin!!
vale a pena conferir!